Eram alguns. Se conheciam há muitos e nem sempre se encontravam. Vez por outra, um aceno na rua, um telefonema rápido e agora, nesses tempos de internet, duas ou três linhas num e-mail. Mas apesar dos atropelos da vida de cada um, havia um momento quando tudo virava passado e só eles importavam.
A festa acontecia em meados de novembro. E desde o ano em que fora instituída, nunca deixara de acontecer. A casa, com aquele aspecto abandonado para quem chagava, se enchia de calor nessa data. Tudo tinha sido cuidadosamente escolhido: as bebidas, o cardápio, as fitas - o anfitrião ainda era do tempo que boa festa se fazia com cassetes e pisca-pisca na parede. E eles iam chegando. Cada um na sua vez, tomavam seus postos e davam inicio à conversa. Colocar as novidades do ano naquelas horas era quase que obrigatório. Se bem que depois da terceira dose de uísque (ou da quinta cerveja), a reunião descambava e os assuntos preferidos eram os peitos das mulheres presentes ou como a "filhinha" de um deles tinha crescido.
Ninguém nunca de opôs ao lugar da festa, nem à data. Na verdade, ela era tratada quase como um ritual sagrado, por isso mesmo, nunca se ousou mudar o lugar ou a época. Assim, como em todos os anos, os amigos não deixavam de comparecer. As esposas - alguns casamentos resistiam ao passar dos anos, aos cabelos brancos e às barrigas - nem discutiam. Quando o convite chegava (e era um acontecimento a espera do convite!) podiam ter certeza que, naquele dia, dificilmente alguma coisa impediria o comparecimento à festa.
O melhor é que naqueles momentos eles eram incríveis. A cumplicidade era a maior já vista e as piadas tinham a graça de sempre. Juntavam-se nos cantos para não atrapalhar os que se arriscavam a balançar o corpo na pista improvisada, dançando tão mal quanto antes. Mas era só o relógio avançar, as novidades envelhecerem, a cerveja minguar (ou o uísque acabar) pro primeiro se despedir. Os outros iam por empuxo. Mais uma hora e não restava nenhum. Era o prenúncio de um novo ano.
Agora era a espera. Em outubro próximo o convite chegaria. Difícil era arrumar o que fazer enquanto isso. Não ligar para não demonstrar ansiedade e fingir que não havia nada ao se esbarrarem pela rua. Afinal, a vida era cheia de momentos, e aquele era só mais um, entre tantos outros.
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postado por: MARIANA TAMAS 09:14